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Desordem Factícia

Revisando conceitos

08/07/2021
08/07/2021

Em todo serviço existe aquele paciente que todos conhecem pelo nome de tão frequente ou problemático ou as duas coisas, esse paciente é.
Lembro-me de duas pacientes do período em que estava cursando a residência. Uma delas engolia objetos não comestíveis e a outra mordia o ponta do próprio dedo da mão, o segundo dedo para ser mais específico. Essa do dedo me marcou um pouco mais, porque até um certo momento, fui convencido de que aquela lesão não era um auto-flagelo, e sim um problema que tinha uma solução objetiva. Chegamos a levar essa paciente para o centro cirúrgico, mais de uma vez.

Pensando nesse caso, resolvi escrever um pouco sobre as Desordens Factícias (DF).

A DF é um transtorno psiquiátrico em que os afetados fabricam intencionalmente doença, lesão ou deficiência a fim de obter internação hospitalar e se submeter a procedimentos médicos, sem qualquer ganho óbvio.

Pacientes com DF podem exagerar ou mentir sobre uma condição médica, imitar ou "encenar" sintomas médicos, interferir nas investigações diagnósticas ou até mesmo auto-induzir doenças ou lesões diretamente.

A DF é diferente dos pacientes que são fingidores. Estes têm um objetivo e benefício claro em fabricar a própria doença. O objetivo dos pacientes com DF são quase sempre obscuros e podem incluir o desejo de receber afeto e cuidado, uma "descarga de adrenalina" ao se submeter a procedimentos médicos ou uma sensação de controle por enganar os profissionais de saúde.

A incidência da DF é muito baixa. A maioria dos médicos encontrará pelo menos um paciente com DF ao longo de sua prática. No entanto, a prevalência exata em ambientes hospitalares é atualmente desconhecida. A DF pode ser responsável por entre 0,6% e 3% dos encaminhamentos da medicina geral para a psiquiatria e entre 0,02% e 0,9% dos casos revisados ​​em clínicas especializadas .

Embora a DF tenha sido reconhecida há séculos, o primeiro estudo extenso sobre a DF aparece na descrição inicial de Asher da "síndrome de Munchausen" em 1951. No entanto, desde então, o termo "síndrome de Munchausen" tornou-se uma fonte de confusão na prática clínica e na literatura publicada. O uso correto do termo é para denotar uma apresentação particularmente severa e crônica de DF, mas “Munchausen” é freqüentemente usado como sinônimo de “factício”.

Dentre as DF, no membro superior, reconhecíveis, estão:

Linfedema Factício: edema indolor de aparecimento misterioso e negação de conhecimento sobre a causa do problema.

Ulceração Factícia:  história de trauma trivial com lesão que não cicatriza.

Postura Disfuncional: o paciente assume uma posição não funcional da mão. Normalmente associada a uma proclamada inabilidade de usar a mão.  Posição clássica - os 3 dedos ulnares estão em flexo enquanto o polegar e indicador estão livres e móveis.


Reconhecendo e evitando a DF 

Existem diversos sinais de alarme para a DF, como:
* Procura de diversos estabelecimentos de saúde sem um diagnóstico claro após múltiplos exames e procedimentos;

* Sintoma desproporcional à lesão ou ao acidente;

* Múltiplas feridas ou cicatrizes;

* Edema ou rigidez que é relatada como estar mudando ou piorando sem causa aparente;

*  Desejo ou vontade manifestada pelo paciente, para mais exames ou tratamento que não são necessários.

Nosso papel como Ortopedistas e médicos é de reconhecer esses padrões de DF e encaminhar para uma avaliação psiquiátrica se possível. No entanto, o ato de encaminhar esse tipo de paciente, envolve um nível de confiança e suporte familiar, que nem sempre está presente. Frequentemente os familiares não aceitam a existência da DF e acabam sendo hostis a uma avaliação psiquiátrica. Portanto são casos que devem ser manejados com extremo cuidado e comunicação.




Referências:
https://doi.org/10.1016/j.genhosppsych.2016.05.002
Wolfe S, Hotchkiss R, Pederson W, Kozin S, Cohen M. Green’s Operative Hand Surgery. 7th Edition. 2017


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