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Bruno Karia



Você saber ler criticamente um artigo científico?

Como saber dizer se o artigo que acabou de ler é relevante pra você?

30/04/2021
30/04/2021

No mundo atual, somos diariamente bombardeados com um grande volume de informações. E podemos facilmente constatar isso quando observamos o aumento no número de sites, revistas, jornais e livros sendo atualizados e publicados constantemente. No ambiente acadêmico isso não é diferente. De fato, o número de artigos publicados em revistas científicas tem crescido ano a ano (https://ncses.nsf.gov/pubs/nsb20206/publication-output-by-region-country-or-economy; https://www.nlm.nih.gov/bsd/medline_cit_counts_yr_pub.html).
Até certo ponto, é vantajoso termos um maior número de fontes de informação e mais conhecimento sendo gerado, mas isso também implica artigos de qualidade duvidosa sendo publicados. Parte do problema pode ser explicado pelo sistema acadêmico incentivar a publicação de artigos mesmo que sejam irrelevantes ou tecnicamente ruins. Sendo assim, nem sempre a melhor abordagem é reduzir a quantidade de informação a qual somos expostos, mas sim termos cautela (e conhecimento) com a forma como interpretamos as informações às quais somos expostos. Invariavelmente nos deparamos com artigos de baixa qualidade e nem nos damos conta, já que normalmente não nos perguntamos se um estudo é bem delineado ou não.
Mas então, como avaliar se a pesquisa que acabei de ler tem de fato resultados incríveis ou se esses resultados são fruto de um estudo mal desenhado? Um olhar crítico e aprofundado sobre os métodos empregados é sempre a dica mais óbvia, porém isso por si só não garante que o artigo que você está lendo seja confiável. Uma pesquisa que tenha responsabilidade científica inicia-se muito antes de as metodologias empregadas serem definidas.
Um bom artigo, aquele que vai agregar conhecimento e aperfeiçoar uma técnica ou tratamento, começa sempre com um cálculo de amostra, que nada mais é uma forma de planejamento. Esse conceito engloba alguns elementos fundamentais para um estudo de qualidade: escolha apropriada do teste estatístico a ser empregado; definição do número amostral; nível de significância; poder observado e, por fim, o tamanho de efeito.
Esse último elemento geralmente é o mais negligenciado, embora seja um dos mais importantes a serem ponderados antes de se iniciar uma pesquisa. O tamanho de efeito nada mais é que a magnitude da diferença entre os grupos estudados. Ou seja, qual é a diferença mínima biologicamente relevante que eu espero ter entre o grupo teste e o grupo controle para que valha a pena implementar o tratamento?
Como exemplo, vejamos o seguinte artigo publicado no Journal of Bone and Joint Surgery: “Surgical Treatment of Distal Radial Fractures with External Fixation Versus Volar Locking Plate” (DOI: 10.2106/JBJS.20.00275). Não vou entrar no mérito se o artigo é de qualidade ou não. O ponto aqui é apenas exemplificar com uma publicação atual e relevante clinicamente. Nesse artigo, os autores avaliaram o uso de duas abordagens diferentes, o uso de fixador externo comparado ao uso de placa volar bloqueada após fratura radial, e as consequências delas ao longo da recuperação do paciente. Em média, após três meses, o grupo que usou placa volar bloqueada conseguiu supinar o punho 75°, enquanto o grupo que fez uso de fixador externo só conseguiu supinar 69°. Estatisticamente falando essa diferença é significativa (p=0,034), mas tem um pequeno tamanho de efeito (dado não mostrado no artigo). Sabendo disso, você indicaria qual abordagem? Isso vai depender da sua interpretação e sua vivência. Por isso, essa “régua de percepção” e pensamento crítico devem sempre estar em nossas mentes na hora de ler um artigo científico.
Nas próximas colunas, continuarei abordando esses conceitos para aperfeiçoarmos nossa leitura crítica e capacidade científica.


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Comentários

Vitor
Muito bom Bruno!
Reflexão muito interessante e importante.
A análise crítica da evidência é extremamente importante em uma área onde o conhecimento muda o tempo todo!
Estarei acompanhando por aqui!
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30/04/2021

Lucas Seiki
Já li muitos artigos sem ter desenvolvido um senso crítico. Importante saber quais ferramentas temos para desenvolver essa análise crítica! Parabéns.
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01/05/2021

Fernando
MUITO bom! Fazia tempos que não lia uma matéria sobre produção científica tão interessante, parabéns mesmo Bruno! Tenho mais uma colocação em cima de seu texto, apenas para acrescentar. Tenho uma sensação de que somos tão bombardeados pelos inúmeros artigos que são publicados diariamente, que mesmo triando e observando com muita cautela os elementos fundamentais, ainda assim pode haver omissão de dados ou criação de informações falsas para publicações que chamem atenção. Será que não chegamos num ponto em que deveríamos começar a nos preocupar em fiscalizar trabalhos científicos, pois entendo que conclusões falsas poderão prejudicar e muito o decorrer da evolução da ciência. Grande abraço, uma ótima semana à todos!
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03/05/2021